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Postado:     10:05

Mãe cria empresa que emprega as 3 filhas e aos 80 anos ainda é chefe de setor no Oeste de Santa Catarina

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No interior de Concórdia, Dona Vitória Cesco era a mais velha de 15 irmãos e, aos 14 anos, o pai pediu que ela aprendesse a costurar, para fazer as roupas da família. Mas quando aprendeu a costurar, foi outra atividade que chamou sua atenção: a professora também bordava. E olhando a mestre ela não só aprendeu como, alguns anos depois, começou, por amor, mas também por necessidade, a Bordados Vitória, que hoje reúne as três filhas, dois netos e um genro. Aos 80 anos, ela segue chefiando um dos setores da empresa, e sem previsão para aposentadoria. 

Desde que começou a costurar, aos 14, ela nunca mais parou. Quando se casou, o pai não deixou que levasse a máquina de costura, mas Dona Vitória e o marido, marceneiro, fizeram o possível para adquirir um novo equipamento assim que possível. Já na época, ela ajudava na marcenaria durante o dia e à noite ia para a máquina de costura fabricar peças sob medida, trabalho que representava um importante complemento para a renda da família.

Quando se mudaram de Concórdia para a cidade de Modelo, também no Oeste, o marido, Nério Ceccon, sofreu um acidente de trabalho e, depois de algum tempo tentando trabalhar, precisou se aposentar por invalidez. Com os 4 filhos pequenos, a mais velha, Odete, com 10 anos, mais do que nunca a costura e o bordado se tornaram essenciais para a família.

“Fazia o serviço de casa e depois ia para o portão trabalhar. Seguia na máquina até horas da noite, conforme precisava”, conta ela.

Costurava e bordava lençóis, colchas, almofadas e outros itens de cama mesa e banho, que até hoje são os principais produtos da empresa.

As filhas

Ainda adolescentes, as filhas também precisaram trabalhar fora, mas Zelir desde o início se dividia entre o trabalho em um supermercado, durante o dia, e ajudar a mãe à noite. Foi ali, no porão da casa, que a criatividade da mãe começou a se destacar. Até então, Zelir costurava e Dona Vitória bordava para amigos, familiares e vizinhos. Em 1986, os pedidos começaram a aumentar e, em 1986, resolveram abrir uma empresa de bordados.

Zelir parou de trabalhar no supermercado para se dedicar exclusivamente à Bordados Vitória. Logo depois, Carmen, uma das mais novas, que havia se formado em recursos humanos e trabalhava em um escritório de contabilidade, também se juntou a elas: precisavam contratar mais costureiras, e o conhecimento de Carmen era essencial.

Segundo Zelir, o crescimento da empresa foi constante desde então. Quando a empresa se mudou do porão da casa para um barracão no Distrito Industrial de Modelo já foi um grande salto. Quando não houve mais espaço, construíram outro barracão, de 6 mil metros quadrados, em frente ao anterior.

Odete, a filha mais velha, que havia se casado e se mudado para a cidade de Maravilha, também no Oeste, retornou para ajudar as irmãs e atualmente é responsável pelo setor de vendas. Dona Vitória tem ainda mais um filho, que é o único que não trabalha na Bordados Vitória. O marido de Zelir também começou a ajudar na empresa, e, assim, junto com a família, Dona Vitória seguiu com suas criações de bordados, atividade pela qual continua apaixonada até hoje.

Trabalho aos 80 anos

Mesmo com as objeções das filhas, que gostariam que Dona Vitória descansasse mais, ela se recusa a parar de trabalhar, ficar em casa ou até mesmo fazer um horário diferenciado. Com poucas exceções, é uma das das primeiras a chegar e uma das últimas a sair da empresa.

Além disso, vai a pé do trabalho para a casa, que fica a cerca de 1 km da fábrica. “Só aceito carona quando tem muito sol, mas senão faço minha caminhada diária indo e voltando”, conta ela, que também segue atuante na empresa.

Dona Vitória é responsável pelo setor de retalhos, que transforma tecidos que sobram da produção de enxovais em peças como almofadas e capas para garrafas térmicas. Mas continua dando pitacos no restante da produção e participando de todas as decisões da empresa.

Na máquina de costura, ela confessa que adoraria ficar mais tempo. “Costuro um pouco, mas não muito, porque as meninas não me deixam”, conta ela, rindo. De onde tira a criatividade?

Enquanto a filha, Zelir, atual chefe de produção, pesquisa tendências em sites especializados e em feiras do setor, as ideias de dona Vitória são “da cabeça”: “com tantos anos de trabalho (quase 70), a gente não esquece”, argumenta ela.

Quando pergunto qual dia foi o mais feliz na fábrica, ela não pensa muito para responder: “todos os dias são mais felizes”.

E sobre o segredo de uma empresa de bordados ter tanto tempo no mercado, ela não pensa muito também: “trabalhar e cuidar”, responde. “Cuidar para fazer bem feito. Se não ficar bom desmancha e faz de novo”, afirma ela, mas confessa que depois de quase 70 anos, quase não precisa refazer.

Trabalho em família

Zelir conta que o relacionamento entre a mãe, as irmãs e os outros membros da família sempre foi bom. Dona Vitória segue sendo a matriarca: “a gente sempre se acertou muito bem”, afirma Zelir.

O marido de Zelir também trabalha na empresa, e a filha do casal, Suellen, que se formou em Direito, cuida da parte administrativa. Outro neto de Dona Vitória, Cledison, é mecânico e cuida da manutenção dos equipamentos.

Conforme Zelir, o segredo é que cada um é responsável pelo seu setor e procura fazer o melhor possível. Já as decisões que envolvem o andamento da empresa são tomadas em conjunto. “Quando se trata de comprar uma máquina nova ou fazer um investimento maior, aí todos se reúnem e decidem juntos”, explica ela.

Segundo Zelir, a situação econômica do país afetou a empresa, que já chegou a ter 120 funcionários – e hoje tem 90. “Antes a empresa trabalhava 24 horas por dia, mas tivemos que reduzir um dos turnos de bordado”, explica.

Porém, desde o início deste ano as vendas melhoraram novamente, e já tiveram que contratar mais 10 pessoas. “Esse ano já começou muito bem. O número de pedidos aumentou e esperamos ter que contratar mais pessoas logo”, explica Zelir.

Quanto à dona Vitória, não esconde o orgulho de ter as três filhas trabalhado juntas. Tampouco as filhas por ter a mãe ainda trabalhando com elas.

“É muito bom! Eu me sinto feliz porque vou deixar um caminho para eles poderem viver”, finaliza dona Vitória.

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